Nota Oficial da SRGI – Posicionamento sobre o uso de medicamentos contra a Covid-19

Em relação a publicação do documento: “ORIENTAÇÕES DO MINISTÉRIO DA SAÚDE PARA TRATAMENTO MEDICAMENTOSO PRECOCE DE PACIENTES COM DIAGNÓSTICO DA COVID-19”, a SRGI vem por meio desse expor seu posicionamento:

  1. Historicamente, as recomendações ou orientações terapêuticas para qualquer agravo, desenvolvidas pelo Ministério da Saúde, vinham se caracterizando por consensos extraídos de consultas a comitês de “experts”. Não está descrito no documento se houve qualquer consulta às especialidades médicas, particularmente aquelas que tem maior interface com a COVID-19, tais como infectologia, pneumologia ou terapia intensiva.
  2. Diretrizes terapêuticas modernas utilizam metodologias de classificação do grau de evidências, dando transparência às decisões, o que não foi observado no documento, com isso as condutas recomendadas não possuem respaldo científico.
  3. Com esse rigor, no dia 18 de maio, a Sociedade Brasileira de Infectologia, Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, publicaram Diretrizes para o Tratamento Farmacológico da COVID-19 demonstrando, nos estudos publicados até o momento, ausência de eficácia de vários tratamentos, incluindo do uso de cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina para tratamento da COVID-19.
  4. O documento classifica a doença como “leve, moderada ou grave”, classificação baseada apenas em sintomas e não possui nenhum fundamento científico.
  5. A divisão da doença em fase 1, 2 e 3 apresentada no documento é arbitrária, não há comprovação de que a história natural da doença se divida nas fases mencionadas e obedeça a cronologia apresentada.
  6. A combinação de cloroquina ou hidroxicloroquina em associação com azitromicina expõe a população a efeitos adversos gravíssimos. Em estudo publicado em 11 de maio de 2020 no periódico cientifico JAMA (Journal of American Medicine Association) envolvendo 1438 pacientes hospitalizados por COVID-19 em Nova Iorque, o risco de parada cardíaca em pacientes recebendo a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina foi 113% maior em relação aos pacientes que não receberam terapia especifica (efeito estatisticamente significativo). Pacientes tratados com hidroxicloroquina isoladamente tiveram 96% mais chance de parada cardíaca em relação aos pacientes que não receberam terapia específica, com tendência a significância estatística.
  7. O uso de corticoides recomendados para o que foi denominado “doença moderada” nas fases iniciais não possui até o momento embasamento científico. Análise de 10 estudos clínicos, totalizando 6548 pacientes com gripe indicaram que o uso dessas medicações aumentou significativamente o risco de morte (75%) e infecções secundárias (98%).
  8. “Para pacientes adultos hospitalizados e com sinais de gravidade” o protocolo considera a utilização de “pulso de corticoide” (“pulsoterapia”, isto é, uso de corticosteroides em doses elevadas com intenção de suprimir a resposta imunológica do paciente) desde o período inicial da doença: esta conduta não foi avaliada em nenhum estudo clínico e pode acarretar em piora clínica da COVID-19 e/ou o aparecimento de infecções oportunistas.
  9. A administração de Imunoglobulina humana não foi avaliada para tratamento da COVID-19. Além do elevado custo, possui efeitos adversos graves como choque anafilático e imunossupressão.
  10. O uso de anticoagulantes sem rigorosa avaliação clínica pode levar a aumento de sangramentos graves, por vezes, fatais. A sua eficácia, sobretudo em fase inicial da doença, não tem nenhuma comprovação cientifica.

O próprio documento proposto pelo MS descreve que “não existem evidências científicas robustas que possibilitem a indicação de terapia farmacológica específica para a COVID-19”. Entretanto, ao considerar tais tratamentos, sobretudo ampliando sua utilização para situações de menor gravidade e de resolução espontânea em cerca de 90% das pessoas, num cenário de escassez de recursos para a saúde, gera preocupante relação entre riscos e benefícios, além de um reforço à uma demanda “mágica” pela cura, que estabelece uma pressão adicional na prescrição médica.

Por fim, o documento não possui assinatura. Protocolos, Notas Técnicas ou Portarias do Ministério da Saúde não podem ser apócrifos, sob pena de questionamento de sua veracidade e responsabilidade.

A Sociedade Rio-grandense de Infectologia reafirma que baseado nas evidências atuais que avaliaram os tratamentos descritos no documento ministerial, ainda é precoce a recomendação de qualquer dos tratamentos, visto que diferentes estudos mostram não haver benefícios para os pacientes que os utilizaram.

Porto Alegre, 20 de maio de 2020

Redigiram e referendaram em conjunto esse documento Ronaldo Campos Hallal e Alexandre Prehn Zavascki pelo Comitê Ad hoc COVID-19 e Alexandre Vargas Schwarzbold e Diego Rodrigues Falci pela SRGI.

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